Tadeu Chiarelli 1992

OS QUASE-RELEVOS
DE LEILA PUGNALONI

Em sua Teoria do Não-Objeto, Ferreira Gullar escreveu que a arte mais avançada deste século se afastava de suas modalidades tradicionais, produzindo objetos especiais, que ele denominou não-objetos. Nem pintura, nem escultura, eles se realizariam “fora dos limites convencionais da arte”, e teriam como intenção profunda justo a necessidade desta quebra dos limites impostos pela tradição artística .

Sendo a singularidade neoconcreta o elemento propulsor da leitura de Gullar sobre a arte deste século, ele de alguma maneira deixava entender no texto que o neoconcretismo era o ponto de chegada natural da arte moderna. Com o neoconcretismo a arte teria alcançado o estágio máximo de distanciamento em relação à arte tradicional com a produção de obras que não poderiam ser mais identificadas como objetos pictóricos ou escultóricos.

Sem dúvida as obras neoconcretas singularizam internacionalmente a produção brasileira dos anos 50, criando um lugar de tensão, um não-lugar onde se instaurou a arte contemporânea no Brasil com um sotaque, digamos, local. No entanto, me parece, elas não se definiriam exatamente pela distância que guardam das modalidades tradicionais. O que parece de fato singularizá-las é o seu caráter aparente de relevo.

Tenha a sua fonte na pintura – caso dos trabalhos de Lygia Clark até os Trepantes -, ou aparentemente na escultura – caso da obra de Amílcar de Castro -, tal produção é originária fundamentalmente do plano, do relevo.

O relevo, por sua vez, se constitui na história da arte como uma modalidade basicamente híbrida, limítrofe: dentro de uma visualidade pictórica que pressupõe um ponto de vista único predeterminado pelo artista, usa também procedimentos oriundos do território da escultura. Entre a pintura e a escultura, o relevo tem sido considerado uma modalidade conservadora por excelência, onde estariam preservadas as convenções idealizantes da arte tradicional.

Tal origem para os neoconcretos foi bastante problemática. Avessos á pintura convencional e sem uma tradição escultórica sólida, coube a eles reinventar o relevo a partir de Tatlin, questionando-o na especificidade de seus elementos, contaminando-o com uma materialidade diversa para, com essas operações, transforma-lo numa instância artística definitivamente comprometida com uma significação não idealista, tensionadora dos valores estéticos estabelecidos pela tradição.

Eles tanto transformaram a concepção original do relevo que até hoje fica difícil chamar aquela produção de relevo. Daí talvez a necessidade de Gullar perceber aquela produção como algo totalmente novo – não-objetos. No entanto, tendo em mente que os trabalhos neoconcretos são relevos redefinidos, despidos de suas conotações conservadoras, melhor seria chamá-los talvez de “quase-relevos” ou “não-relevos”.

E me parece que tal operação não se esgotou na experiência neoconcreta. As gerações que se seguiram àquela vêm produzindo artistas cujos trabalhos, demonstrando uma forte aderência ao plano, não se decidem conscientemente entre a pintura e a escultura, preferindo ampliar aquele não-lugar ou aquele lugar híbrido fundado pela produção neoconcreta estabelecida a partir da redefinição das potencialidades do relevo.

Essas considerações servem para introduzir os trabalhos de Leila Pugnaloni, artista carioca atuante em Curitiba.

O primeiro contato com eles é perturbador. Frente aquelas obras o olhar de imediato se desestabiliza, devido à forma do plano-suporte concebido em perspectiva, como uma aparência. Lembram mais a representação de uma pintura monocromática realizada a partir de um determinado ponto que não é aquele onde o observador se localiza.

Impelido a ajustar-se melhor para perceber a obra, ele repara de imediato que aquela “representação” possui um corpo físico com uma espessura significativa a ponto de tirar o plano do repouso, e que sua torsão é real, não ilusória. Impossível, portanto, encontrar um ponto ideal de apreciação. Experimentar visualmente o trabalho da artista é vivenciá-lo no tempo e no espaço reais, percebendo suas peculiaridades, as surpresas que ele apresenta a cada mudança de direção do olhar, a cada deslocamento do observador.

Mas como percebê-lo de maneira “exata”, se não se enquadra muito bem em nenhuma das modalidades artísticas tradicionais, perguntaria alguém necessitado de definições.

Originalmente pintura, reforça seu caráter fundamentalmente pictórico, exercitando em suas superfícies a capacidade ilusória de criar espaços, volumes com a luz e a sombra. Mas mesmo assim esse trabalho não é propriamente pintura, uma vez que seu suporte em tensão com o plano lhe retira o caráter ideal do espaço bidimensional. Esta tensão transforma-o num objeto estranho que parece sempre desejar transcender sua condição primeira para alcançar o espaço real, através de uma espessura que se constitui na própria forma do suporte.

Um desejo de transcender o pictórico que nunca se efetiva na verdade, mesmo quando se engaja definitivamente no mundo, assumindo forma tridimensional. Mas o trabalho da artista não pode ser definido como escultura, porque mesmo ocupando o espaço tridimensional mantém uma analogia fortíssima com a parede de onde veio, além de manter as irredutíveis questões pictóricas.

Seriam simples relevos, então? Parece que também não. Situados entre a pintura e a escultura, os trabalhos de Pugnaloni não podem ser pensados assim, pois os relevos, como foi dito, guardam em si uma forte carga conservadora, convencional. Frente a eles, o observador é impelido a se situar num ponto ideal de observação onde irá perceber a representação de um espaço e um tempo previamente cristalizados, independentes das suas circunstâncias materiais.

Já frente ao trabalho da artista, seria impossível ao observador deter-se numa apreciação passiva. Pelo contrário, apesar de sua aderência ao plano, esses trabalhos exigem uma experiência mais direta, uma vivência que se dá na realidade espaço-temporal onde os dois se situam.


O que os trabalhos de Leila Pugnaloni têm em comum coma tradição iniciada com os neoconcretos? O fato de reinventarem um outro sentido para a arte contemporânea a partir de uma modalidade basicamente idealizante e conservadora como o relevo. Sua produção recente atesta ser perfeitamente possível criar obras capazes de subverter o espaço e o tempo ideais cristalizados pela arte tradicional através justamente da subversão constante dos valores idealizantes da pintura e da escultura no plano, ampliando assim uma cultura visual que, sem romper em definitivo com o estatuto da arte, matem em permanente tensão.

Tadeu Chiarelli – Agosto de 1992